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Meninas da Vila – Vila Mimosa, Cartão postal secreto do Rio de Janeiro

Meninas da Vila  – Vila Mimosa, Cartão postal secreto do Rio de Janeiro Por Marcelo Carrera & Pedro Farina
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Nossa relação com a fotografia é profunda, intensa, orgânica, ultrapassa a paixão pelas imagens e o que elas representam hoje.
Em nosso ponto de vista, fotografar é eternizar um momento que já não existe, está morto, e que constitui uma tentativa tola de negar a morte, aprisionar a vida, lidar com o desejo delirante de perdurar a própria existência, como uma garrafa jogada ao mar do tempo, contendo uma mensagem para ser interpretada no futuro. É assim que nosso Coletivo se relaciona com as imagens e funciona criativamente.
O projeto Meninas da Vila (Vila Mimosa, cartão postal secreto do Rio de Janeiro) nasceu da curiosidade sobre essa vila centenária e pela necessidade de tentar entender um pouco melhor quem eram essas mulheres: se frequentavam a igreja; como lidavam com sentimentos como ‘culpa’, ‘vergonha’, ‘medo’; de que modo interagiam com suas famílias e com a moral cristã predominante.
Várias outras questões foram surgindo e juntando-se às que inicialmente nos motivaram: que caminhos de vida e circunstâncias as levaram àquele lugar? Por que motivo alguém concorda em se prostituir por R$ 28,00 e ficar com apenas R$18,00 depois de pagar o valor do quarto? Onde, como, com quem gastam o que recebem?
Um ano e muitas visitas depois, descobrimos que temos muito mais semelhanças com essas mulheres do que imaginávamos a princípio.
Não queríamos julgar nem parecer que estávamos em um zoológico, queríamos retratar os olhares, o vazio, o medo, os abusos, as tatuagens, os valores e o código de ética do local.
É, portanto, um trabalho documental ainda em andamento, por meio do qual estamos ‘invadindo’ a vida particular dessas mulheres, bem como os cafetões e clientes. É o que os americanos chamam de Enviromental Portraits.
Em termos técnicos, usamos somente luz natural, o que significa dizer que usamos quase nenhuma luz, pois os quartos são minúsculos, tendo, na maioria das vezes, uma lâmpada fraca, uma janela ou uma fresta no telhado.
Contudo, fomos percebendo que essa condição de pouca luminosidade nos possibilitava mostrar de forma contundente as cores e texturas das paredes, bem como, em muitos casos, contribuía para esconder os rostos, tirando partido das sombras, ou oferecendo enquadramentos agressivos, que traduzem inquestionavelmente aquela realidade como a víamos em cada sessão.
Muitos nos perguntam qual o propósito de tudo isso. Outros indagam o que de novo estamos trazendo com esse trabalho. Já nos questionaram até qual seria o tipo de perversão que nos motiva. Sadismo?!
Acreditamos que a resposta vai além da experiência fotográfica, pois o que nos interessa são as pessoas e a documentação desse ambiente tão hostil, raramente conhecido fora daqueles quarteirões, dificilmente divulgado para o público que não o frequenta.
Assim, pretendemos propor uma reflexão sobre ética, valores, direitos femininos, descaso do governo, hipocrisia, buscando estabelecer alguma comunicação entre esse universo quase sempre ‘varrido para baixo do tapete’ e este outro do qual somos parte, gerando informação, pois a ignorância é a mãe de todos os preconceitos.
Consideramos fundamental ressaltar que as “meninas” não foram dirigidas, e que nunca tivemos relação sexual com elas: o método era sempre pagar o programa de 15 minutos e, nesse intervalo, em um quarto imundo e escuro, tentar fazer retratos que representassem aquela experiência.
Muitas vezes fizemos fotos com filme, usando médio formato, e, para entrar com uma Hasselblad em um lugar com essas características, é preciso ter muita disciplina, além de uma grande motivação para fotografar.
Podemos afirmar que essa experiência tem nos afetado profundamente, mas tem nos dado uma perspectiva totalmente nova, e isso nos motiva. É a revelação de um mundo novo, uma nova regra, novos personagens, muitos dos quais, embora vivam da ‘indústria’ do sexo, não se reduzem à sua prática. Não nos move qualquer espécie de sadismo ou perversão: sentimos-nos desenvolvendo uma experiência sociológica relevante sob todos os aspectos.
Todas as fotografias desse trabalho são de pessoas que, assim como eu e você, almejam a felicidade.
Pode ser que não lhe interesse saber que existe uma vila no Rio de Janeiro, com mais de 100 anos, tida como a maior zona de prostituição heterossexual do mundo, onde cerca de 1.000 mulheres trabalham 24 horas por dia, 7 dias por semana. Pode ser que você deteste as fotos resultantes do nosso trabalho….mas nosso projeto foi feito para que você não possa negar que ela existe ou quem sabe no futuro existiu.
Marcelo Carrera & Pedro Farina

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