DA SUPRESSÃO DO OBJETO Lygia Clark (ANOTAÇÕES)

Lygia-ClarkDesde que o objeto perdeu o seu sentido como meio de comunicação e o homem entra como temática, sendo o objeto de si mesmo e do outro, a ligação arte e patologia apresenta novos aspectos curiosos: – o artista que está interessado em trabalhar com psicanalistas, dando o seu material ligado diretamente ao corpo para regredir pacientes e fazê-los consciência do próprio corpo. Material esse colhido de dentro do próprio artista, que viveu sua própria regressão e crescimento através de sua elaboração, tendo o que Laing chama de acidentes psicóticos;

– o artista vivendo a sua patologia em público, seja queimando seu próprio corpo como Gina Pane, ou ilustrando o objeto com o próprio corpo, como um americano que se estende no chão e se chama ponte;

– outros, expondo a sua patologia como “obra de arte”, o que suscitou grande escândalo na Bienal de Veneza, em que, para tal, um artista alugou um mongólico.

O curioso é que se expressar através da arte foi até hoje um meio de recuperação para os doentes mentais. Mas aí, o expressar-se era ainda uma projeção e hoje já não se trata de projeção mas do contrário, de introversão.

Receber em bruto as percepções, vivê-las, elaborar-se através do processo, regredindo e crescendo para fora, para o mundo. Anteriormente, na projeção, o artista sublimava os seus problemas através de símbolos, figuras ou objetos construídos. O artista que perde a autoria da obra teve inicialmente várias atitudes compensatórias. Cultivou a sua personalidade como obra, passou a ser a sua própria assinatura. Outros se voltaram para o misticismo, ainda na necessidade de uma poética transferente. Acabar com o “objeto transferencial” e assumir-se, me parece a sua maior dificuldade.

Assumindo a sua patologia e acabando com o “objeto transferencial”, ele não precisa ilustrá-Ia, utilizando para isso o seu próprio corpo, mutilando-o, sofrendo, ou ainda expondo a mesma através de um caso clínico, como o fez o artista que expôs  mongólico. Hoje tudo está sendo checado fundamentalmente, o anti-objeto, a anti-psiquiatria, o anti-Édipo, é difícil delimitar a fronteira entre normalidade e patologia. Mas sobram os comportamentos, embora caiam os títulos e os mesmos merecem atenção. O que significa o artista se mutilar em público? Vamos esquecer a palavra masoquismo, auto-destruição, e, relacionada com o público, a palavra sadismo. Destruir o próprio  corpo na medida em que ele se transforma em temática, em que ele é o próprio objeto transferencial, agora já eliminado, é destruir-se a si mesmo ou, nessa destruição está inserido o mito do artista? Ou nessa aparente desmistificação o mito do artista cresce na medida em que ele, artista, é o objeto desse espetáculo? Qual a diferença de um artista que corta e destrói uma tela para negar a mesma como um objeto de expressão? Parece-me mal resolvido como pensamento da negação da obra e do mito do artista. Atitude romântica do artista que ainda precisa de um objeto, mesmo sendo ele, o objeto, para negar.

O artista que se chama “ponte” tomando a forma da mesma. Desde que o objeto morreu, ele substitui o objeto no sentido literal e passa a ser o mesmo numa atitude meramente ilustrativa, esqueçamos o termo catatônico. Ora, na medida em que ele se torna objeto, ele não assume a perda poética ainda transferida, ao contrário, é ainda o corpo que se torna objeto mas não há salto qualitativo, é uma atitude regressiva.

Quanto aos que expõem a patologia como obra de arte: pode ser uma decorrência do cruzamento da arte e patologia o estar a haver, na essência, uma falta de pensamento total, de percepção do verdadeiro sentido desse problema tão grave e belo, deturpação que se poderia chamar modismo…

Através do “caminhando” perco a autoria, incorporo o ato como conceito de existência. Dissolvo-me no coletivo, perco minha imagem, meu pai e todos passam a ser o mesmo para mim. Escrevo sem parar, acho a ligação da poética transferente  da arte com a religião, escrevo textos negando o nome como identidade pessoal das pessoas. Tomo consciência de que o “caminhando” é a primeira passagem do meu  eu para o mundo, percebendo a totalidade do ritmo desde o futebol de praia até Mozart. Tomo também consciência da crise geral da expressão na literatura, dos gêneros que caem, do teatro. Perplexa sinto a multidão nos metrôs, na cadência dos passos somados, no cruzamento de corpos que quase se tocam mas que se afastam, cada um tomando rumos secretos de existência privada. Falo e ninguém entende. Não consigo comunicar essa mudança de conceito que para mim era tão profunda e radical dividindo a arte entre “o que já era” e o que poderia ser. Sinto profundamente a queda de valores de palavras que deixaram de ter significado como o “gênio” e a “obra”, o individualismo. Penso e vivo a morte. Sinto a multidão que cria em cima do meu corpo, minha boca tem gosto de terra. Faço o meu mausoléu com caixas de fósforos, saio para a vida, redescobrindo sons com uma agudeza impressionante. A vida estava se abrindo como uma afirmação de vida mas  vivida ainda como morte, vazio total. Raros momentos de integração em bruto com a realidade. Encostada num tronco curvo de árvore me sinto como se fosse o próprio tronco. Passando a mão em volta de uma estátua, viro a prega do seu manto. O quotidiano, o niilismo, a imobilidade, penso na morte como solução.

Sonho: Minha cara era lisa, sem arquitetura, sem relevo, sem cavidade. Percebo um ponto no lugar de um olho -possibilidade de recompô-Ia por mim mesma, desenhando-a.Através de pequenos objetos sem valor como elásticos, pedras, sacos plásticos,  formulo objetos sensoriais cujo toque provoca sensações que identifico imediatamente como o corpo. Daí o nome “nostalgia do corpo”, fase analítica em  que decomponho o corpo em partes, mutilando-o para reconhecê-lo através do toque com grande sensualidade.

A fantasia do mundo como um grande bicho não percebido pelo homem.  Deixava construir sobre o seu corpo, pequenas arquiteturas, cidades, deixava navegar no seu mijo que são rios, tragava tudo ao esboçar um bocejo ou um pequeno gesto. Com a abertura das pernas ele inundava cidades, destruía pontes que o homem reconstrói sem a percepção dessa totalidade mundo-bicho que  incorpora tudo no seu ventre. A nostalgia do homem de ser coberto, unificado no grande corpo. Quantos sexos ele tem, acho que são vários e que ele copula consigo próprio. Dentro do seu peito habita uma ave – pasto para um leão que habita o seu ventre. Ritual, festim, renascendo cada dia a ave para ser devorada pelo leão.

Quando passo pelos campos vejo em dois cruzamentos de colinas os seios do bicho. Percebo nas plancícies o seu ventre e através dos tufos de árvores os seus sexos. Em cima da mesa articulo pequenas pedras com plásticos as que chamo natureza e toda mulher que vejo passar carregando um saco, esse saco é parte do seu corpo tão vivo como um ventre. Formulo grandes “máscaras-órgãos” com plásticos, sacos de cebolas com  pedras. Quando se coloca essas máscaras, se percebe um grande espaço abismal e o tocá-Ias ainda é o reconhecimento do corpo. Perdi minha identidade estou diluída no coletivo. Vejo-me através de todas as pessoas independente de sexo de idade. Tento reconstruir a arquitetura da minha cara me apropriando das fisionomias que vejo. “Eu sou o outro”. Sinto-me tão elástica e maleável que me adapto a toda a sorte de contatos. Vivo toda a sorte de situações secretas e imaginárias. O acoitar o pênis entre as pernas num quarto desconhecido. Parceira de um abraço visualizado num casal. Sou a cabeça da mulher que fez dobras na camisa branca de um homem solitário. Incorporo as estrias grávidas que a barca abre no Sena como uma faca penetrando a carne do corpo. Reconheço a solidão da puta como “a estrangeira” na percepção do homem que parte. O inconsciente aponta atravé  de sonhos uma regressão profunda. Passo através de túneis, sou expelida, me vejo rodeada de fetos, seios com forma de cabeça de serpente que vomita uma substância compacta, substância essa expelida por mim em sonhos do passado até introjetá-la como parte integrante do meu corpo. Sinto a nostalgia da normalidade e tenho medo da loucura. Controlo o meu inconsciente, corto na fase crítica os sonhos de regressão, induso o inconsciente a soltar um material de crescimento. Fragmentada vivo o erótico com um, a sensualidade com outro e ainda a criança perversa e libidinosa em função de um terceiro. Estou “possuída” apelo para o diabo e tenho horror a tudo o que se refere à magia negra -vejo seus signos em riscos deixados em passeios por patins, em rachaduras de paredes envelhecidas, em fisionomias curtidas pela velhice ou pela dor. O tempo fragmentado: momentos de euforia, pausa, niilismo; sou um ser à parte no mundo, coberta pelo meu corpo, escondida, paralisada, à espera de como dar continuidade ao conceito do momento, do precário, religando as pausas sentir que um dia é um dia mas que a soma são, na realidade, dois e que um mês tem 30 desses dias para depois se desdobrar no  tempo de uma vida.

Depois de ver um livro de fotografias pornográficas percebi que meus  trabalhos, proposições eram muito mais eróticos que o livro que havia visto. Ser tocada por um amigo que tinha na sua cabeça uma máscara sensorial, provocou um grande choque em mim com se tivesse profanado o meu trabalho ainda vivido como sagrado. Depois, o propor essa ligação veio da minha parte: passei a pedir às pessoas que se tocassem sem medo e vivessem essa experiência erótica ainda proposta através de um objeto intermediário.

A percepção da carga erótica nos sacos cheios de pedras, nas máscarasórgãos fálicos, das mucosas do sexo no toque de um saco cheio de ar, da penetração no expelir a pedra entocada nesse saco, do seio pressionado pela mão, do entrelaçamento dos corpos copulando na passagem do túnel, da briga do macho e da fêmea por cima por baixo, da passividade da fêmea deitada e do homem por cima, do acariciar-se a dois através do “diálogo” o toque das pedras penduradas nas costas do homem que sustenta o túnel do nascimento – culhões, do hálito fresco ou fétido do parceiro nas proposições gestuais, cara a cara, poro a poro, suor, a promiscuidade de corpos lúdicos que se repelem, se entrelaçam, se agridem e   esboçam o ato da multiplicação da espécie, a unificação do “profano” e do “sagrado”.

Sinto-me sem categoria, onde é meu lugar no mundo ? Tomo horror a ser catalizadora de minhas proposições. Quero que as pessoas as vivam e introjetem o seu próprio mito independente de mim.

Sonho: Me vi nua, enorme, eu era a paisagem, o continente, o mundo. Em  torno do meu púbis, pequenos homens construíram uma barragem. Barragem de contenção ou grande lago para todos nele mergulharem.

A negação de qualquer expressão de proposições e a percepção da vida para ser  vivida. Receber as percepções em bruto sem passar por qualquer processo intermediário. A percepção da arquitetura da idade média em que a mesma é ainda um corpo, abrigo poético, tendo o homem ainda necessidade de habitá-lo. Nostalgia do útero. O reconhecimento dos espaços percebidos nas últimas proposições em  que já não havia nenhum objeto intermediário, como um espaço que reconheço como espaço interior do corpo. Espaço esse ligado numa noite com a própria vagina, onde o feto para nascer tem que mergulhar. Espaço abismal, túnel, morte, passagem condutora para a vida. Espaço vivido pelo feto como morte ligando a  dualidade vida -morte.

Problemática que o acompanha em todo o seu processo de maturação ovo – mortalha. Regressão do feto que sai do seu verdadeiro habitat: útero. O engolir o espaço exterior para abrindo os pulmões num grito, espaço esse identificado por mim com o que chamei há anos de “vazio pleno” em que a poética ainda era transferente. Religamento do espaço metafísico com o imanente. Já nada invento só: as invenções nascem a dois, a três numa troca comum de diálogo sendo isso que mais colado a vida consegui propor. Divido a proposição e aceito a invenção  do outro. Grande instinto de morte colado à grande vitalidade. A consciência de que não havia opção para fazer tudo o que fiz até agora, várias opções se abrindo para viver a vida de várias maneiras, o espaço real onde, na dinâmica do corpo, elaboro meus passos, meus gestos, o tempo real onde se manifestam coisas concretas. A recolocação do real em termos de vida. Pensamento mudo, o se calar, a consciência de outras realidades, do meu egocentrismo que de tão grande me fez dar tudo ao outro, até a autoria da obra. O silêncio, a interação no coletivo, a recomposição do meu eu, a procura de um profundo sentido de vida no grande sentido social, o meu lugar no mundo. A consciência de que o entregar-se no fazer amor não existe, mas sim uma apropriação do pênis como parte integrante do meu corpo, o me sentir através o outro como se copulasse comigo própria. O outro passa a ser eu, o inverso do conceito expresso e vivido por tanto tempo como eu sendo o outro. Sonho: Estou fazendo minhas experiências com os plásticos dentro do oceano.

A água era o elemento que preenchia todo o vazio do espaço.  Acordo e choro todo o oceano.  O que me falta para complementar todo esse vazio. Carboneras. Do avião: o solo todo revolvido, a terra se move num processo  contínuo como o começo do mundo. Sinto um calor que vem de dentro do corpo como se tivesse engolido um tijolo-quente. Sinto-me grávida. Num táxi, em direção à praia, tenho a percepção de um sonho antigo: e vejo no cosmos, sentada na garupa de um diabo em cima de um pacote vermelho vendo a terra embaixo. Perco o sentido do tempo ou percebo a terra que continua o mesmo processo, se fazendo e desfazendo continuamente. Passam-se horas que na realidade são segundos. Chego à praia. Passo a noite num estado alucinatório total, o tempo continua elástico, enorme, num minuto tenho a percepção de séculos. Visão constante de  uma forma que me parece ser a soma dos dois sexos, feminino ou masculino. 

Dentro de mim uma criança chora de pavor. Vou ao banheiro – vejo minha cara no espelho, deformada, a pele está solta, os ossos por baixo estão tortos, sou uma velha de 5.000 anos de idade. Compreendo Goya pela primeira vez. Da varanda vejo o mar, a terra, o ar e tudo me parece mercúrio. Os sons me penetram de uma maneira aguda, passam pelos meus nervos invadindo todo o meu corpo. A terra sempre no processo do fazer-se a cada instante. Passa uma manada de bodes pretos que me olham com olhos rasgados cor de mel. Magia negra, estou invadida pelo inconsciente. Engatinhando desço o morro, pego na água, na areia, na terra e aspiro o ar. Penso em arrolhar dentro de uma garrafa esses elementos para num rótulo, dar-lhes, outra vez identidade. Como alguns calamares: é como se engolisse a paisagem, é algo sensacional. Três noites, três dias sem dormir. Na quarta começo a chorar e a bocejar até que caindo na exaustão, dormi: ao acordar me vejo no espelho e redescubro a minha cara, o meu eu que me fora negado e dissolvido por tanto tempo.

PENSAMENTO MUDO

“Da supressão do objeto (Anotações)”,

Navilouca, Rio de Janeiro, 1975.

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