Arquivo de agosto \25\UTC 2013

“Grande parte dos homens vive vidas de silencioso desespero” Thoreau

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Multiverso por Marcelo Carrera

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Quantas almas encontrei pelo caminho sufocadas por tanta liberdade, vivendo a náusea provocada pelo excesso de possibilidades e na inevitável renúncia angustiante que cada uma dessas escolhas representa.

Diante dessa realidade a minha tentativa desesperada de ter tudo ao mesmo tempo, sem que nada escorra pelos dedos de minha mão, me parece sem sentido.

Sou escravo dos meus desejos e mesmo assim tenho uma estranha ilusão de liberdade, uma ilusão construída por desejos que nem são genuinamente meus e sim fazem parte de uma cultura da qual estou contaminado até a medula.

Em seu Manifesto sobre a vida do artista, Marina Abramovic provoca, dizendo :

 

”O artista nunca deve mentir para sí próprio, nem para os outros.”

“O artista deve procurar a inspiração no seu âmago.”

“Quanto mais se aprofundarem em seu âmago, mais universais serão.”

“O artista deve criar um espaço para que o silêncio adentre sua obra.”

“O artista deve reservar para si longos períodos de solidão.”

“O artista deve passar longos períodos de tempo perto de cachoeiras.”

“O artista deve passar longos períodos de tempo olhando as corredeiras dos rios.”

“O artista deve passar longos períodos de tempo contemplando a linha do horizonte”

“O artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estrelas no céu da noite”

 

Essa proposta quase religiosa da busca de uma verdade interior essencial, de um contato direto com a natureza, com o silêncio e sua reflexão me tocou, me deu um motivo, me fez sentir a necessidade de tentar remover todo esse véu cultural que cobre meus medos e desejos genuínos, colocando uma nova luz de compreensão sobre meus sentimentos. Buscando novos sentidos e interpretações, quero encontrar novas camadas de entendimento sobre quem eu sou e o que eu quero.

E foi na natureza, nesse território distante, primitivo e orgânico, que desenvolvemos todo o trabalho, como uma expedição, uma experiência sensorial, como se estivessemos explorando um universo novo paralelo que nos permitiu essa catarse, o resultado gerou esse livro e trouxe efeitos transformadores, terapêuticos e profundos em nós dois.

Multiverso é um conceito que articula a existência de multiplos universos que ocorrem simultaneamente em dimensões paralelas, uma visão que designa o conjunto infinito de possibilidades que formam o tempo e o espaço, vividos por nós como uma única realidade.

Com tantas possibilidadades posso ser muitos, posso mudar sempre. Quero continuar destruindo todas as minhas certezas.

VEJA O LIVRO AQUI.

http://br.blurb.com/books/4312909-multiverso

MULTIVERSO Texto Simone Rodrigues

MULTIVERSO - MARCELO CARRERA & JOAO PACCA

Há algo abominável a respeito das câmeras, porque elas têm o poder de inventar muitos mundos. Como artista que vem há muito se perdendo no campo selvagem da reprodução mecânica, eu não sei com que mundo começar.

Robert Smithson

A perplexidade expressa por Smithson nesse texto – A Arte Através do Olho da Câmera (1971) – pode nos ajudar a deixar de fora alguns preconceitos a respeito da fotografia antes de adentrarmos o campo simbólico de Multiverso – o mundo inventado por João Pacca e Marcelo Carrera –, pois este começa justamente com o desafio à nossa capacidade de entender onde estamos e de nomear o que vemos.

Este certamente não é o mundo com o qual estamos familiarizados. E nosso estranhamento não se resume ao fato de que os contornos nítidos das formas figurativas, que costumam ser o traço distintivo do registro fotográfico, aqui tendem à abstração – resultado da perda de nitidez provocada pelos tempos longos de exposição, pela presença de amplos planos desfocados e pela insidiosa presença das sombras. Em Multiverso, a atmosfera sobrenatural, se impõe para além de sua ambientação no espaço físico da natureza.

O caráter idílico das imagens logo nos transporta para a dimensão dos sonhos e suas formas misteriosas de existência. Aqui, plantas, pedras, grutas, rios e cachoeiras funcionam como cenário anímico no qual nosso personagem se movimenta.

Ao tentar compreender o que se desenrola nesse cenário, esbarramos em um conjunto híbrido de elementos mitológicos clássicos, sem que possamos reduzi-lo a nenhum mito específico. O belo Narciso, a clarividência de Apolo, a embriaguez de Dionísio, o Hades implacável e muitas outras personificações de divindades povoam essa história, metamorfoseadas. Nesta narrativa alegórica, corpo, espaço e câmera ensaiam um tipo de dança cosmogônica potente o suficiente para reencenar seus ritos pessoais e, a partir deles, reinventar seus mitos.

São gestos e atitudes simbólicas que evocam algum tipo de celebração ou sacrifício. Caso seja um culto, não resta dúvida de que se trata de uma forma de religiosidade panteísta, primitiva, pagã. A relação íntima e sensual com os elementos naturais é a força que move este corpo-espírito que, como uma divindade imanente, nos faz perceber que a natureza é construída como experiência sensível e é capaz de sacralizar o ato prosaico e o profano.

Como toda narrativa mítica, o tempo aqui não é nem linear, nem cronológico, mas cíclico e atemporal. Numa leitura que não exclui sua pluridirecionalidade, parece tratar-se de uma história arquetípica: a jornada do herói em sua busca do autoconhecimento que se sabe autofabricação – autopoiesis, para usar a expressão de Maturana. Neste território de passagem entre a natureza e a cultura, não poderia faltar a crise do enfrentamento da própria sombra, a interdição, o tabu, e sua transcendência/ transfiguração simbolizada pela experiência de morte/renascimento.

Diferentemente da fábula, em geral acompanhada de um ensinamento moral edificante e didaticamente transmitido, a narrativa de Multiverso é aberta e amoral. Os artistas aqui se projetam como que num transe, num êxtase que se apresenta como narrativa subjetiva, verdadeiramente catártica, tendo em vista o contexto cultural a que pertencem, moderno, industrial, urbano, tecnológico, cuja nota dominante é, sem dúvida, o ceticismo.

http://www.marcelocarrera.com/Multiverso.shtml


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